sábado, 7 de novembro de 2015

Portos do Pico: erros tremendos

Artigo de Manuel Tomás na rubrica "Do maroiço espreito o mundo" no jornal Ilha Maior
A insatisfação define o homem, escrevi na carta anterior. A insatisfação aumenta quando os erros tremendos impedem a resolução dos problemas existentes ou a reparação dos surgidos. O mar galgava a terra, as obras eram feitas para evitar que tal acontecesse. Só que o mar continuou e continua a galgar a terra. Sempre que a nortada surge. A intempérie não respeita a ocasião que a gente precisa para fazer a viagem. Os últimos dias castigaram severamente o porto da Madalena. Voltou-se a falar dos erros, dos tremendos erros cometidos na sua construção. Parece que não só na
Madalena, mas aqui, no porto do Canal, mais do que em outro lugar, tendo em conta as implicações diárias que a não realização da viagem acarreta. Há muita gente a depender da viagem. São as consultas no Hospital da Horta. São as ligações para fora da região, através do aeroporto da Horta. São os trabalhos de muita gente que tem de atravessar o Canal, diariamente, para cumprir o seu horário. São os turistas que ainda atravessam o mar de um lado para o outro, apesar de em menor número. Vemos os barcos chegar ao porto sempre com muita gente a bordo. A vida desta Comunidade do Canal, por ser isso mesmo, não pode passar sem as travessias diárias. A primeira muralha do porto da Madalena esteve programada para ser executada, pelo menos, cinquenta metros mais fora, em relação à construída, disse-me João Quaresma, o senhor das Lanchas do Pico. E que nem teria sido mais cara, porque, mais fora, ainda menos profundo era o mar. Um especialista, em recente conversa, talvez inútil, na Comissão de Inqué- rito aos Transportes Marítimos do Triângulo, disse-o, que teria sido fácil fazer o (um só) porto do Pico, na Madalena e, sobretudo, muito mais barato. Também ouvi um engenheiro da Tecnovia, no tempo da construção dos portos do Pico, dizer que o de São Roque, naquele momento, seria o sétimo mais profundo do mundo. De que mundo? Na Madalena, apertaram o espaço e fizeram uma pocinha que pouco mais dá do que para umas “coisitas”. Em São Roque não cresceram o cais por causa da profundidade. E nas Ribeiras fizeram outro cais para as traineiras que
já não há e que serviu, no dia 27 de Outubro, para receber o Cruzeiro, em viagem da Horta, face aos vários cancelamentos do dia anterior e desse mesmo dia. Mas, ainda estava um dos Cruzeiros no porto das Ribeiras, onde o povo compareceu em grande número, e já o outro Cruzeiro rumava à Madalena. Mudava-se o tempo, vinha a lancha e alguém perguntava: “E se fosse a Espalamaca, teria operado com aquele mau tempo?” Como eram três concelhos e como diziam que os picarotos não se entendiam, lá resolveram fazer três espécies de porto, sem que algum prestasse para coisa nenhuma... Os portos do Pico foram erros tremendos. E nem o que se faz de novo neles vem melhorar o que antes não prestava. Basta ver a obra recente do porto da Madalena. Em todos os portos construíram o pontão da rampa para passageiros com aberturas por baixo para uma melhor circulação da água, menos na Madalena. E o da Madalena foi depois e pior. É só um exemplo, porque sobre os defeitos daquele porto e do terminal, já escrevi bastante e não me vou repetir “hic et nunc”, mas hei-de voltar sempre, que a matéria não se esgota e há ainda o “sob o ponto de vista...” O mau tempo pôs a nu as deficiências dos portos do Pico. Ou melhor, do porto de passageiros do Pico. O comercial estava operacional, mas os navios da empresa pú- blica regional de transporte marítimo não sabiam, porque lá não foram ou não quiseram ir. As autoridades ficaram muito contentes porque havia a alternativa das Ribeiras. Só numa região muito rica, como deve ser esta dos Açores, é que se podiam dar ao luxo de ter feito três portos no Pico, uma ilha de quinze mil habitantes, às vezes menos. Nenhum é seguramente de grande qualidade, média que fosse e a gente já se contentava. Até eu, que sempre reprovei a desenho no Liceu, teria desenhado o novo pontão e a nova rampa ro-ro da Madalena noutro sítio e nunca em frente à entrada do porto, por onde entram os barcos, mas também entra a
ondulação. Não é verdade, meu caro Dr. Watson? Vêm aí os novos barcos. Grandes e majestosos! No Pico, vão operar onde? As definições técnicas para as melhorias no porto do Cais do Pico continuam em estudo. Esperemos que fiquem prontas antes da chegada do novo século, ou da dos barcos grandes, já muito contestados, por vozes avisadas e por outras que estão sempre contra o que os outros fazem, todavia não querer ouvir quem sabe da poda, pode trazer prejuízos aos frutos do futuro. Três erros tremendos feitos no Pico, em três coisas parecidos com portos a sério, deviam dar que pensar. Não só está mal feito, como, pior ainda, não pode ser corrigido. Excepto se houver a coragem de deitar abaixo e fazer de novo, no local mais apropriado, como dizia o tal especialista na já referida comissão de inquérito. Continuar a dividir para reinar no Pico, fará com que o espírito de capelinha só sirva para alguns sacristães de meia tigela, que alimentam missas de uma paróquia muito pechinchinha. Os erros tremendos pagam-se, mas não se apagam.

Fotos de arquivo